Desmourget, Michel. A Fábrica de Cretinos Digitais: os perigos das telas para as nossas crianças. 1. ed. São Paulo: Vestígio, 2023.

Visão geral

A obra apresenta, sob a forma de uma extensa meta-análise que reúne quase 1.500 fontes de referência, uma compilação dos impactos negativos que o uso de telas vem promovendo sobre crianças e jovens, notadamente nos campos de desempenho escolar, desenvolvimento cognitivo, estabelecimento de comportamentos nocivos e danos à saúde física e mental. A partir da desconstrução de mitos a respeito de uma possível nova dinâmica cognitiva induzida pela onipresença de telas e mídias (o autor desfaz o mito de “nativos digitais” a partir de inúmeras pesquisas), Desmourget demonstra que “o consumo digital recreativo das novas gerações não é apenas ‘excessivo’ ou ‘exagerado'; ele é extravagante e está fora de controle”(pp. 274) e parte para uma análise detalhada das influências nefastas das telas, num processo de impregnação gradativa, da primeira infância à entrada na vida adulta, que ele caracteriza como uma “verdadeira devastação cognitiva”(pp. 193).

Essa devastação ocorre essencialmente segundo dois mecanismos. Primeiro, pela usurpação do tempo de vigília de crianças e jovens, que, em todas as economias ocidentais desenvolvidas, é gradativa (aumenta com a idade), relativamente homogênea (entre grupos de gênero e renda; com um impacto superior, porém, sobre crianças mais frágeis do ponto de vista socioeconômico) e atinge níveis incríveis, que chegam ao patamar de sete horas diárias para adolescentes europeus e americanos. Segundo, por uma dinâmica de influências inter-relacionadas, cujos efeitos se sobrepõem e se misturam. Além do precioso tempo roubado em períodos formativos da cognição e da sociabilidade, as telas engendram distração, impactam o sono, levam a aumentos do tabagismo, do alcoolismo, da adoção de comportamentos sexuais de risco e aumentam o sedentarismo, entre outros fatores que irão, numa segunda camada de efeitos, reduzir capacidade de aprendizado e desenvolvimento (ver pp. 77 a 79). Essas complexas correlações dificultam a pesquisa científica e permitem que lobistas da indústria digital implementem um sem-número de representações enviesadas ou parciais dos efeitos das telas, sob a forma de campanhas globais de desinformação.

Especificamente sobre o uso de telas para educação, o autor analisa tanto os desdobramentos da aplicação direta de tecnologias de informação e comunicação (TIC) no processo de ensino-aprendizagem e os resultados globais de programas de digitalização do ensino de base (que, no mundo todo, tiveram resultados em geral negativos; neutros no melhor cenário), quanto aspectos cognitivos, pedagógicos e econômicos do fenômeno. Em sua visão, “o digital é, antes de tudo, um meio de reduzir as despesas educativas” (pp. 135) e que a adoção de TIC nas escolas dependeu do estabelecimento de uma narrativa enviesada em torno de uma “revolução educativa”(pp. 135) para tão somente justificar redução de custos no sistema, sobretudo pela remoção ou rebaixamento do papel dos professores. Ele ressalva, em contraposição a este rebaixamento, que“(…) o professor qualificado e bem-formado (…) [é] o único elemento comum a todos os sistemas escolares mais desenvolvidos do planeta” (pp. 276).

Desmourget conclui que é necessário um controle mais rigoroso do tempo de tela entre crianças e adolescentes, recomendando práticas parentais mais conscientes para mitigar os riscos associados, sob a forma de orientações bastante precisas sobre limites aceitáveis a partir das pesquisas compiladas e um processo educativo que introduza autoconsciência, em crianças e jovens, sobre os danos da utilização constante de telas em suas vidas.

Tópicos de Interesse

Nativos digitais

Está estabelecida no imaginário social a ideia de que ˜(1) a onipresença de telas digitais criou uma nova geração de seres humanos absolutamente diferente das precedentes; (2) os membros dessa geração são especialistas no manejo e na compreensão das ferramentas digitais; (3) para preservar alguma eficácia (e credibilidade), o sistema escolar deve, imperativamente, se adaptar a essa revolução”(pp. 21).

Categoria Pré-Adolescentes (8-12 anos) Adolescentes (13-18 anos)
Uso total de telas por dia 5 horas 7 horas
Atividades recreativas Incluem programas, filmes, séries, videogames, sites comerciais, vídeos de música, mídias sociais Mesmo que pré-adolescentes
Tempo dedicado à criação ~2% do uso total ~3% do uso total
Uso escolar Muito reduzido, tempo recreativo é 13x maior Muito reduzido, tempo recreativo é 7,5x maior